Efeitos clínicos da sauna seca regular: o que diz a revisão sistemática

A revisão sistemática publicada na Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine analisou 40 estudos clínicos com 3.855 participantes e concluiu que a sauna seca regular pode melhorar função cardiovascular, circulação periférica, metabolismo, dor crônica e bem-estar, com poucos efeitos adversos em pessoas bem avaliadas.

1/19/20266 min read

Nas últimas décadas, a sauna seca passou de um hábito cultural típico de alguns países para uma prática de bem-estar presente em academias, spas, clínicas e residências ao redor do mundo. Apesar de muitos estabelecimentos atribuírem à sauna uma série de benefícios para saúde, até recentemente faltava uma visão integrada e crítica sobre o que, de fato, já estava comprovado pela ciência.​

Uma revisão sistemática publicada em 2018, na revista Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, analisou 40 estudos clínicos envolvendo 3.855 participantes para avaliar os efeitos do uso regular de sauna seca sobre diversos desfechos de saúde. Desses, apenas 13 eram ensaios clínicos randomizados, o que mostra que o campo ainda está em desenvolvimento, mas já com um volume considerável de dados.​

Como foi feita a revisão

Os autores seguiram diretrizes PRISMA para revisões sistemáticas, pesquisando bases médicas por estudos em humanos, publicados a partir do ano 2000, que utilizassem sessões repetidas de sauna seca e relatassem pelo menos um desfecho clínico ou fisiológico de saúde. Foram avaliados riscos de viés segundo critérios da Cochrane, contemplando desenho dos estudos, tamanho de amostra e qualidade metodológica.​

Foram incluídos estudos com adultos saudáveis, pessoas com doenças cardiovasculares, indivíduos com dor crônica, pacientes com doença arterial periférica e outros grupos clínicos específicos. A heterogeneidade de populações e protocolos (tempo de sessão, temperatura, frequência semanal) foi grande, mas, no conjunto, a maioria dos trabalhos relatou efeitos benéficos do uso regular de sauna seca.​

Definição de sauna seca e protocolos típicos

Na revisão, a sauna seca é descrita como um ambiente aquecido, geralmente entre 70–100 °C, com umidade baixa, em que a pessoa permanece sentada ou deitada por um período que varia, em geral, de 10 a 20 minutos por sessão. Muitos protocolos utilizam ciclos de aquecimento seguidos de resfriamento e repouso, repetidos uma ou mais vezes na mesma visita, com frequência de 2 a 7 vezes por semana, dependendo do estudo e do objetivo terapêutico.​

Essas sessões caracterizam uma forma de “termoterapia de corpo inteiro”, em que o calor intenso provoca aumento de temperatura central, sudorese importante, vasodilatação periférica e aumento da frequência cardíaca, com respostas fisiológicas semelhantes a um exercício físico leve a moderado.​

Efeitos cardiovasculares observados

Uma das áreas mais estudadas é a saúde cardiovascular. Em pacientes com insuficiência cardíaca crônica, o uso regular de sauna (em protocolos semelhantes ao chamado “Waon therapy”) foi associado a:​

  • Redução da pressão arterial sistólica e diastólica.​

  • Melhora da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (LVEF) em exames de ecocardiograma.​

  • Redução de marcadores como BNP (peptídeo natriurético tipo B), que indicam menor sobrecarga cardíaca.​

  • Aumento da distância percorrida no teste de caminhada de 6 minutos, sugerindo melhora da capacidade funcional.​

Alguns estudos ainda mostraram menor taxa de hospitalizações por agravamento de insuficiência cardíaca em pacientes que incorporaram sessões regulares de sauna ao tratamento convencional, em comparação com grupos controle que recebiam apenas a terapia padrão. Em indivíduos com hipertensão ou fatores de risco cardiovasculares, foram relatadas quedas significativas na pressão arterial, melhora da função endotelial e redução de marcadores de estresse oxidativo.​

Benefícios em condições circulatórias e dor crônica

Além dos efeitos sobre o coração, a revisão encontrou benefícios em doenças vasculares e dor crônica. Em pacientes com doença arterial periférica, sessões regulares de sauna foram associadas a:​

  • Redução da dor em membros inferiores (medida por escalas visuais de dor).​

  • Aumento da distância de caminhada sem dor.​

  • Melhora do índice tornozelo-braquial (ABI), indicador de fluxo sanguíneo periférico.​

Para pessoas com dor musculoesquelética crônica, fibromialgia ou cefaleias tensionais, alguns estudos registraram redução de intensidade de dor, melhoria de qualidade de sono e aumento da sensação de bem-estar após programas de sauna repetidos. Embora muitas dessas pesquisas tenham amostras pequenas, os resultados apontam a sauna como recurso coadjuvante promissor em protocolos de reabilitação e manejo da dor.​

Impactos metabólicos e de composição corporal

Outra frente de investigação diz respeito aos efeitos da sauna sobre metabolismo, peso corporal e perfis lipídico e glicêmico. Em alguns ensaios, o uso regular de sauna foi associado a:​

  • Reduções modestas, porém significativas, de peso corporal e circunferência abdominal.​

  • Diminuição de colesterol total e LDL, com aumento de HDL em determinados protocolos (por exemplo, 45 minutos de sauna em mulheres, por 2 semanas).​

  • Queda de glicemia de jejum em indivíduos com fatores de risco metabólicos.​

Em nível celular, trabalhos citados na revisão descrevem que a termoterapia de corpo inteiro, incluindo sauna, pode:

  • Aumentar a produção de proteínas de choque térmico (HSP).​

  • Reduzir espécies reativas de oxigênio e o estresse oxidativo.​

  • Modular vias inflamatórias, melhorar a sensibilidade à insulina e aumentar a disponibilidade de óxido nítrico (NO), com efeitos positivos sobre a função vascular.​

Esses mecanismos ajudam a explicar por que a sauna, quando utilizada de forma repetida, pode influenciar positivamente componentes da síndrome metabólica e contribuir para um perfil cardiometabólico mais saudável.​

Efeitos em pele, imunidade e bem-estar

A revisão também identificou estudos avaliando parâmetros de pele, função imune e bem-estar subjetivo. Em comparação com iniciantes, frequentadores regulares de sauna apresentaram:​

  • Melhor capacidade de retenção de hidratação cutânea e maior elasticidade da pele.​

  • Redução da concentração de cloreto de sódio no suor com o tempo, indicando adaptação às condições de calor.​

Alguns trabalhos relataram melhora de sintomas respiratórios e redução na frequência de resfriados em usuários de sauna, embora as evidências nessa área ainda sejam limitadas e heterogêneas. Em termos de bem-estar, muitos participantes reportaram relaxamento, menor nível percebido de estresse e melhora da qualidade de sono após programas regulares de sauna.​

Segurança, efeitos adversos e limitações

Um ponto importante da revisão é a análise de segurança. Entre os 40 estudos incluídos, apenas um trabalho pequeno, com 10 homens, relatou um efeito adverso clínico relevante: alteração temporária da espermatogênese associada ao uso frequente de sauna, que se mostrou reversível após a interrupção da exposição.​

Fora esse achado, os autores observaram poucos eventos adversos graves diretamente atribuídos à sauna seca em populações devidamente selecionadas e monitoradas. No entanto, chamam atenção para cuidados fundamentais:​

  • Pessoas com doenças cardiovasculares graves, hipotensão, arritmias ou outras condições crônicas devem buscar avaliação médica antes de iniciar sessões regulares.​

  • A hidratação deve ser rigorosamente mantida, evitando consumo de álcool antes ou logo após a sauna.​

  • A exposição deve ser progressiva, ajustando tempo e temperatura conforme tolerância individual.​

A revisão destaca ainda que muitos estudos têm amostras pequenas, desenho observacional e risco de viés moderado, o que limita a força das conclusões e reforça a necessidade de mais ensaios clínicos bem controlados.​

Conclusões da revisão sistemática

No conjunto, a revisão conclui que o uso regular de sauna seca apresenta potencial para oferecer benefícios clínicos em diferentes áreas: função cardiovascular, circulação periférica, controle de dor crônica, parâmetros metabólicos, saúde da pele, imunidade e bem-estar geral. Os resultados são, em sua maioria, positivos, com poucos efeitos adversos relatados em pessoas adequadamente avaliadas e acompanhadas.​

Ao mesmo tempo, os autores reforçam que a sauna não substitui tratamentos médicos, medicamentos ou programas de exercício e nutrição, devendo ser utilizada como complemento dentro de uma estratégia mais ampla de promoção de saúde. Também apontam a necessidade de estudos mais robustos para definir, com maior precisão, a frequência, duração e intensidade ideais das sessões para diferentes objetivos (cardiovascular, metabólico, dor, etc.) e para identificar quais grupos de pacientes se beneficiam mais dessa prática.​

Este texto é uma adaptação em linguagem acessível do artigo:
Hussain J, Cohen M. Clinical Effects of Regular Dry Sauna Bathing: A Systematic Review. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2018;2018:1857413.

Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5941775/​